Eu
e um amigo decidimos fazer uma experiência: Tentar viver como o
próprio São Francisco viveu, nem que fosse por apenas cinco
dias. Quero dizer, sair de um lugar com apenas a roupa do corpo, documento,
uma garrafa de água, breviário e a Bíblia, portanto,
com a providência divina.
Saí de minha cidadezinha pequena e tranqüila para andar de
trem e metrô pela primeira vez sozinho em São Paulo, para
encontrar-me com um amigo que juntos iríamos fazer esta experiência.
Cheguei no dia 2 de janeiro de 2006 às 17h, e qual não foi
a minha supressa, fiquei perdido no terminal, depois de algum tempo meu
amigo me encentrou e levou-me para sua casa onde conversamos e planejamos
a peregrinação.
O dia amanheceu e logo iniciamos. Participamos da Santa missa, comungamos
do corpo do Senhor, alimento para a nossa caminhada. Decidimos que seria
melhor partir do terminal do Tietê, por isso utilizamos o metrô
até lá.
Quando chegamos lá, ficamos perdidos e não sabíamos
nem mesmo como sair do terminal, depois de muito perguntar, saímos
e fomos parar na Marginal, ou seja na via expressa. Caminhamos por um
longo espaço entre os carros, o coração batia muito
forte porque às vezes o espaço era mínimo entre nós
e os carros, mas estávamos decididos a fazemos esta peregrinação.
O tempo ia passando e a fome ia chegando. A nossa primeira refeição
foi pelas 11h, quando encontramos um pé de manga, assim que pegamos
três mangas que estavam verdes, continuamos a caminhar.
Caminhamos mais uma hora, e depois paramos para rezar às horas
média, acabando, prosseguimos por um longo tempo, até que
sentimos fome. Entramos em uma vila e começamos a pedir nas casas.
Depois de muito pedir, eis que um senhor nos deu 4 pêssegos e um
pacote de bolacha recheada (nunca comi pêssegos tão deliciosos
como esses!) e uma senhora nos deu carne com batatas. Sentamos ali mesmo
na calçada e comenos, acabando de comer resolvemos voltar até
a rodovia onde acabamos descansando um pouco debaixo de um viaduto, lemos
e discutimos um trecho da Biblia.
Seguimos adiante, nisso já eram 14h, e mais tarde fizemos uma segunda
pausa, desta vez num posto de estrada que tinha nos fundo um banheiro,
que parecia não ter sido muito bem cuidado. Os caminhoneiros o
utilizavam para tomar banho; meio desconfiados fomos tentar tomar um banho,
o meu colega aproveitou e lavou a sua camiseta, pois fazia muito calor.
Voltamos para a pista e só paramos para jantar. Pedimos comida
em um restaurante bem conhecido, que tinha "frango" no nome,
muito atrativo para ocasião, mas a princípio pensamos que
seria impossível conseguir alguma coisa, por ser um restaurante
de nome. Chegamos e pedimos para uma das moças que atendia no balcão,
ela nós disse que teria que falar com o gerente e lá fomos
nós falar com o gerente, pedimos para ele um pouco de comida que
tinha sobrado de alguma mesa; de momento ele ficou nos olhando, mas acabou
nos dando. Ao terminar a janta caminhamos só mais um pouco pois
já estávamos cansados e não encontravamos um lugar
para descansar, foi quando avistamos um pedágio, ao chegamos nos
sentamos em um canto, mas logo veio um senhor dizendo que não poderíamos
ficar ali, porque era proibido. Argumentamos com ele, mas não teve
jeito, disse que poderíamos ficar em uma balança que ficava
a alguns quilomêtros adiante.
Seguimos em frente, casado e com muito sono, enfim encontramos a tal balança,
pedimos para o guarda que fazia a ronda, e ele nos deixou ficar por lá.
Fizemos a oração da noite, e fomos dormir. Mas não
demorou muito, começou a chover, resolvemos ficar debaixo de um
cesto de lixo. Choveu muito forte durante a noite toda, por mais que nos
encolhêssemos, não era o suficiente para não nos molharmos
(Essa foi a noite mais longa de minha vida!). Quando amanheceu, mesmo
sem café da manhã, percorremos a maior quantidade de quilômetros
sem parar, mesmo garoando. Já estávamos mortos de cansaço
e de fome, pensávamos em pedir carona, mas resolvemos seguir em
frente. Só paramos por volta do meio-dia, quando encontramos um
grupo de trabalhadores que faziam obras na pista e pedimos comida. Eles,
a princípio, disseram que não tinham, mas depois acabaram
nos dando dois marmitex e um refrigerante de dois litros quase cheio.
Terminado o almoço prosseguimos caminhada, mas a essa altura eu
já não estava mais agüentando caminhar, meus pés
doíam. Então decidimos pedir carona até a entrada
de Campinas, à essa altura, nós havíamos andados
mais de 85 quilômetros, faltando apenas 15 para chegar até
a entrada da cidade. Muitos recusaram carona e quando pensamos que não
seria mais possível, Deus mais uma vez nos ajudou, pois um motorista
nos deu carona e foi muito simpático. Ele nos deixou na entrada
da cidade, nisso já eram 2h da tarde.
Quando pensamos que estava perto do nosso objetivo, que era chegar a casa
da "Toca de Assis", estávamos enganados, pois quando
perguntamos para as pessoas se elas conheciam a casa, eles disseram que
sim e que teríamos que pegar um ônibus até lá,
mas quando falamos que nós estávamos de a pé, eles
faziam uma cara de espantados. Pedimos informação para muitas
outras pessoas, já que nenhum de nós conhecia a cidade,
tivemos que atravessar quase a metade da cidade para chegar lá,
já eram 18h quando chegamos. Ao chegarmos na "casa mãe"
da Toca de Assis os irmãos estavam rezando e não tinha ninguém
para nos atender, ficamos sentados na calçada e meu amigo acabou
cochilando ali mesmo, eu fiquei acordado, mas não demorou muito
para os irmãos chegarem.
O irmão João nos acolheu e nos levou para a casa de artesanato
que ficava ali perto. Logo que chegamos ele perguntou se nós queríamos
tomar banho, eu olhei para o meu amigo com a cara de quem estava dizendo,
"era tudo que eu queria". Após o banho, jantamos e ficamos
conversando com o irmão João e o irmão que era responsável
pela casa (desculpe mas eu não me lembro do nome dele). Até
então não tínhamos contado para eles quem nós
éramos e nem que nós tínhamos vindo de a pé,
não queríamos contar para eles que éramos seminaristas
franciscanos, para que fôssemos tratados como os outros irmãos
que estavam na casa.
Depois de muita conversa o irmão João quis saber quem nós
éramos e de onde nós estávamos vindo, e acabamos
falado tudo: quem éramos, de onde nós tínhamos vindo
e por que revolvemos fazer esta caminhada. Depois fomos dormir.
No dia seguinte fomos à missa com os irmãos da Toca, ao
voltar passamos na "Casa da Aliança" para ver se o padre
estava lá, mas devido a uma viajem, não havia chegado ainda.
Meu amigo e eu estávamos muito casados da caminhada, mas nós
tínhamos que voltar, ainda participaríamos de uma missão
que nós franciscanos fazemos todo início de ano. Mas a nossa
preocupação era de que não agüentaríamos
voltar de pé, pelo fato de estamos com os pés cheios de
bolhas. Então resolvemos pedir dinheiro para volta. Meu amigo ligou
para a casa do irmão dele e pediu para depositar 30 reais, no banco.
O meu amigo não contou para os seus parente o porquê estava
pedindo o dinheiro. E desse jeito foi feito.
Passamos dois dias na Toca, muito bem acolhidos por todos que estavam
na casa. No sábado depois do almoço saímos para pegar
uma "van", pois tínhamos apenas o suficiente para isso
e já que o ônibus era muito caro. Quando saímos da
cidade qual não foi a nossa surpresa, o motorista não tinha
autorização para transportar os passageiros, nós
já tínhamos andado mais de 10 quilômetros, quando
o motorista resolveu voltar e ir por Jundiaí, e foi. Quando nós
pensávamos que tudo tinha dado certo, o inesperado aconteceu, a
"van" quebrou, ou seja, nós teríamos de pegar
outro carro, mas nós tínhamos dinheiro suficiente para ir
de ônibus.
No carro, haviam mais pessoas que não podiam pagar um ônibus,
entres elas estava uma mulher e três crianças. O meu colega
resolveu ir até um posto de gasolina e perguntar se haveria outro
meio de ir para São Paulo. A mulher já estava quase chorando,
quando o meu amigo chegou dizendo que o frentista tinha dito para ele
que o único meio de ir para São Paulo era de trem. Mas era
preciso pegar um circular e ir até um determinado terminal, e de
lá pagar um outro ônibus que iria até a estação
de Jundiaí, e daí poderíamos pegar o trem.
E dessa forma nós fizemos, eu e meu amigo e mais a mulher com as
três crianças e mais outras quatro pessoas. As outras, que
podiam pagar, ficaram lá esperando o ônibus da viação
Cometa que passava por lá.
Quando nós chegamos na estação de Jundiaí
já eram 16h e não demorou muito para o trem chegar. O resto
da viajem ocorreu sem mais problemas.
Quando eu e meu amigo chegamos na estação encontramos uma
das pessoas que havia ficado lá para vir de ônibus estava
na estação conosco, perguntamos o porque dele estar ali,
ele nos respondeu que ele e mais duas pessoas tiveram que pagar um táxi,
porque o ônibus não tinha passado, e nós para matar
a curiosidade interpelamos sobre o preço que eles tinha pago. Ele
falou que havia ficado 60 reais, que eles dividiram em três. Com
isso, nós logo concluímos que nós tínhamos
feito a melhor escolha, porque a nossa passagem custou apenas 5 reais.
Quando chegamos na casa do meu amigo era em torno de 22h.
Bem, não termina a nossa experiência de tentar viver como
o próprio São Francisco viveu, até porque a vida
de São Francisco não resume em uma simples peregrinação.
A vida dele tem que ser imitada todos os dias, para quem sabe, nós
pobre e humanos possamos chegar até nosso Senhor e Salvador Jesus
Cristo, seguindo os passos do nosso Pai Seráfico São Francisco
de Assis. A História foi esta, mas o que não dá para
colocar no papel é o que nós passamos e sentimos com esta
peregrinação e o quanto isto nos fez crescer interiormente
e espiritualmente.
Paz e Bem.
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