| José
Lisboa Moreira de Oliveira, SDV Lendo,
alguns dias atrás, a revista "Rogate" (nº 216 - outubro
de 2003 - pp. 8-15) encontrei algumas estatísticas da Igreja Católica.
A revista cita como fonte o jornal L'Osservatore Romano (edição
em português, nº 29, 19/07/03, pp. 6-8), órgão oficial
do Vaticano. Fiquei surpreso com os dados sobre o número de padres que
existe atualmente no mundo. Diante do quadro apresentado, resolvi fazer estas
reflexões, esperando assim contribuir para a revisão de algumas
situações, especialmente para uma melhor redistribuição
dos presbíteros e a retomada da consciência missionária. 1.
O número de padres no mundo De acordo com a estatística acima
mencionada, em 2001 existiam 405.067 presbíteros em todo o mundo. Isso
significa uma média de 1 (um) padre para cada 15.139 habitantes do planeta.
Se considerarmos apenas o número de católicos, temos 1 (um) padre
para cada 2.619 fiéis. Relacionando o número de padres com o número
de bispos existentes, teríamos para cada bispo uma média de 87,10
presbíteros. Tendo presente o fato de que não mais de 10% dos católicos
são praticantes, podemos concluir que existe 1 (um) padre para cada 261,9
católicos praticantes. Vemos então que o número de padres
não é assim tão pequeno como se costuma alardear por aí,
especialmente naquele tipo de atividade vocacional da Igreja identificado exclusivamente
com a promoção da vocação do presbítero e no
qual o Serviço de Animação Vocacional é confundido
com "Obra das Vocações Sacerdotais" (OVS). A média
mundial se apresenta bastante equilibrada. Não existem razões para
desespero e nem para tanta obsessão. O que estaria acontecendo então?
Acredito que o problema não está na falta de padres, mas na falta
de espírito missionário. Esta falta de espírito missionário
se encontra não apenas nos padres, mas principalmente nos bispos, os quais
não preparam os seus presbitérios para o serviço ministerial,
lá onde há mais urgência e mais necessidade. Isso leva à
concentração de presbíteros em algumas regiões, especialmente
nas mais ricas, deixando outras áreas, particularmente as mais pobres,
desprovidas da presença de ministros ordenados. Os números fornecidos
pela própria direção da Igreja Católica colocam em
evidência essa realidade. Eles provam que não é suficiente
apenas incentivar e promover a vocação do padre. É preciso,
com muita urgência, criar nos presbíteros e nos seminaristas a sensibilidade
para o serviço missionário. Se não fizermos isso, poderemos
até chegar a um número bem maior de padres, mas regiões inteiras
continuarão abandonadas e centenas de milhares de comunidades católicas
permanecerão privadas da presença de um ministro ordenado. 2.
A raiz do problema O problema da falta de pastores é tão
antigo como a própria Igreja. O próprio Jesus já tinha percebido
isso quando, olhando para as multidões, ficou tomado de compaixão
porque viu que elas "estavam exaustas e prostradas como ovelhas sem pastor"
(Mt 9,36). Por essa razão deixou a seguinte recomendação:
"A messe é abundante, mas os operários, pouco numerosos; pedi,
pois, ao dono da messe que mande operários para a sua messe" (Mt 9,37-38).
Certamente os operários aos quais Jesus se refere não são
apenas os padres, mas todos os evangelizadores e todas as evangelizadoras dos
quais a Igreja necessita para fazer chegar a toda a humanidade a Boa Notícia,
o Evangelho. Mas os padres também estão incluídos nesta lista
e, enquanto ministros que presidem e animam as comunidades, possuem uma missão
sumamente importante. Uma análise mais criteriosa desse texto e do paralelo
encontrado em Lucas (Lc 10,1-20) nos mostra com clareza que para Jesus o problema
não está na falta de pastores, mas na falta de operários,
ou seja, de gente que queira ir pelas cidades e povoados, pelas aldeias e demais
localidades. No tempo de Jesus, a Palestina estava infestada de sacerdotes, levitas,
escribas, fariseus, doutores da lei, mas faltava quem tivesse compaixão
do povo e quem fosse ao encontro dele para "curar as suas doenças
e enfermidades" (Mt 10,1). Aliás, voltando um pouco mais no tempo,
podemos constatar que os profetas da Primeira Aliança já denunciaram
uma situação semelhante. Eles acusavam os pastores que "apascentavam
a si mesmos" (Jr 34,2) e não cuidavam da comunidade, especialmente
das pessoas mais sofridas. O oráculo de Ezequiel é dirigido aos
governantes do povo, mas tinha também como destinatários os chefes
religiosos, mesmo porque era praticamente impossível, para a mentalidade
judaica da época, pensar as duas coisas de forma separada. Na Igreja
o problema apareceu muito cedo. No século VI o papa São Gregório
Magno já lamentava a falta de operários para a messe. Mas dizia
igualmente que o problema não estava na falta de ministros ordenados, mas
no pouco espírito missionário dos mesmos. Havia muitos padres, sim,
mas poucos dedicados e doados pela causa do Reino. Em uma de suas homilias São
Gregório advertia: "Para grande messe, poucos operários, coisa
que não sem imensa tristeza podemos repetir; pois embora haja quem escute
as palavras boas, falta quem as diga. Eis que o mundo está cheio de sacerdotes,
todavia, raramente se vê um operário na messe de Deus; porque aceitamos,
sim, o ofício sacerdotal, mas não cumprimos o dever do ofício". A
questão, pois, é muito antiga. Não faltam padres, mas, como
nos lembra são Gregório, falta paixão pelo Reino. O ministério
é visto apenas como status, privilégio, meio de fazer carreira e
de resolver situações pessoais, como profissão rentável.
Por isso muitos aceitam serem ordenados, mas somente um número pequeno
se dispõe a "cumprir o dever do ofício", ou seja, a servir
o Povo de Deus lá onde realmente ele precisa.
3.
Alguns exemplos ilustrativos Quem acompanha de perto a vida da nossa Igreja
conhece situações em que é bem visível essa realidade
e começa a entender que o problema não está na falta de padres,
mas na falta de espírito missionário dos presbíteros. Uma
primeira constatação pode ser feita a partir do Anuário da
Igreja Católica no Brasil. Ali é possível verificar a grande
concentração de padres nas grandes cidades, especialmente nas capitais,
de modo particular aquelas litorâneas. O interior do país, sobretudo
as pequenas cidades, os lugares mais afastados e pobres, ficam completamente esquecidos.
Se olharmos atentamente as próprias capitais, vamos notar que a maioria
dos padres está no centro das cidades, ou seja, nos bairros mais abastados,
onde a vida é mais fácil. As periferias, mesmo com população
mais numerosa, dispõem de um número menor de padres. Conheço
o caso de algumas dioceses que não sabem o que fazer com os seus padres.
O número de presbíteros já é maior do que o número
de paróquias. Os padres não aceitam trabalhar juntos numa mesma
paróquia. Querem que o bispo crie paróquias novas para que cada
um tenha o seu "feudo" e com todos os "acessórios indispensáveis":
casa, carro, telefone, telefone celular, computador, Internet, salário,
funcionários e assim por diante. Quando é feita a proposta de uma
paróquia na periferia, mas sem todas essas mordomias, a recusa é
imediata. Em certas arquidioceses, as paróquias de periferia estão
completamente abandonadas. Em algumas delas os párocos não moram
no local, mas em bairros mais "chiques", porque não fica bem
o padre morar nesses lugares! O povo vê a cara do pároco somente
nos finais de semana e em algumas ocasiões especiais. Em outras, há
missa somente de vez em quando, pois não há padres para celebrar
nelas. Enquanto isso, nas paróquias do centro, onde as pessoas têm
seus carros e podem se locomover com mais facilidade, são celebradas até
cinco ou seis missas no domingo. Em nível mundial, todos conhecemos
a corrida dos padres dos países pobres para os países mais ricos,
situados no norte do planeta. Muitos padres do hemisfério sul, particularmente
da Ásia e da África, sonham ir para a Europa Ocidental e para a
América do Norte. Lá chegando, não querem voltar mais para
os seus países de origem. A situação estava ficando tão
grave que, em 2002, a própria Santa Sé teve que intervir, proibindo
os bispos dos países ricos de receberem padres dos países pobres
sem prévio entendimento com o bispo da diocese de origem dos presbíteros. Muitos
bispos, especialmente das dioceses mais abastadas, são poucos sensíveis
às necessidades das Igrejas mais pobres. Ficam fazendo as contas, reclamando
a falta de padres. Não são capazes de despertar a consciência
missionária em seus presbitérios. Lembro-me do caso de um bispo
de uma diocese pobre do Nordeste, que sentindo a escassez de presbíteros
de sua Igreja, dirigiu-se a um seu colega de uma diocese do Sul do país,
bem servida de padres. Diante do pedido do seu irmão nordestino, o bispo
sulista recitou uma longa ladainha de lamentos, tentando provar que não
tinha como oferecer um padre para a outra diocese irmã. O bispo do Nordeste
concluiu sua conversa com o seguinte desabafo, ainda que revestido de santa ironia:
"Fiquei com tanta pena do coitadinho que quase lhe oferecia um padre da minha
pobre diocese para ajudar a resolver a sua penúria!". Se dermos
uma olhada na vida consagrada, percebemos que há também alguma coisa
errada. A pesquisa da CRB, feita em 1997 e publicada em 1998, traz alguns dados
que são bastante significativos. Ela mostra, por exemplo, que há
mais religiosas e mais religiosos nascidos no Nordeste morando no Sudeste do que
no próprio Nordeste. O levantamento da CRB diz que 14,6% dos religiosos
e 11,6% das religiosas afirmam ter nascido no Nordeste. Mas somente 10,6% dos
religiosos e 8,9% das religiosas declararam que viviam naquela ocasião
no Nordeste. Isso fica mais evidente quando tomamos os dados do próprio
Sudeste. Cerca de 35,2% dos religiosos e 32,8% das religiosas afirmavam ter nascido
no Sudeste. No entanto, 44,2% dos religiosos e 39,4% das religiosas disseram que
estavam morando no Sudeste. Porém, o Sul se apresentou como uma região
com bastante consciência missionária. De fato, 45,5% dos religiosos
e 47,9% das religiosas declaram ter nascido nesta região. Mas somente 23,3%
dos religiosos e 39,0% das religiosas dizem estar morando na região Sul
do Brasil. Todavia, sabe-se que as vocações ali estão em
declínio e é bem provável que daqui a alguns anos, o Sul
esteja povoado de religiosos e religiosas vindos de regiões mais pobres
do país.
4.
Retomar a proposta do Vaticano II Durante o Concílio Vaticano II
esta questão foi, por diversas vezes, levantada e debatida. No final do
Concílio ficaram algumas propostas bastante significativas. Elas, porém,
parece que foram completamente esquecidas, salvo honrosas e beneméritas
exceções. Por essa razão considero urgente retomar alguns
desses elementos. O Vaticano II insistiu sobre a necessidade de uma melhor
distribuição dos padres. Pediu que os presbíteros cultivassem
uma solicitude por todas as Igrejas. Sugeriu que as dioceses com maior número
de padres oferecessem, com prazer, presbíteros para as regiões mais
carentes de ministros ordenados. Nesta iniciativa o bispo não só
deve permitir, mas encorajar os padres para a missão. Para tanto, pedia
o Concílio, devem-se rever as normas de encardinação, de
modo que elas correspondam às necessidades da Igreja do nosso tempo e favoreçam
uma adequada distribuição dos presbíteros (cf. PO, 10). Recordando
que os presbíteros devem buscar servir ao bem de toda a Igreja, evitando
a dispersão de forças (cf. LG, 28), o Vaticano II insistiu muito
sobre o dever missionário dos presbíteros. O serviço da missão
não é um acessório na vida do padre, mas elemento fundamental
do seu ministério. Por isso, tanto nos seminários como nas faculdades
de teologia, será necessário fomentar a consciência missionária
(cf. AG, 39). Os bispos, por sua vez, são chamados a preparar e enviar
presbíteros para as regiões mais carentes, para que ali eles exerçam
o sagrado ministério de forma definitiva ou ao menos por um tempo determinado.
Eles devem considerar não só as necessidades de sua diocese, mas
também as das outras Igrejas particulares, pois estas são expressão
da mesma e única Igreja de Jesus. Para tanto devem buscar aliviar ao máximo
os sofrimentos das dioceses mais carentes de presbíteros (cf. CD, 6). No
que diz respeito à vida consagrada, o Concílio foi bastante preciso.
Essa, de fato, precisa ter "um espírito e trabalho realmente católico"
(cf. AG, 40). Não deve voltar-se apenas para os interesses do próprio
grupo. Com determinação o Vaticano II convidou a vida consagrada
a se interrogar com sinceridade, diante de Deus, sobre a possibilidade de deixar
algumas atividades para se comprometer com o serviço nos lugares de missão,
com novas atividades missionárias. A vida consagrada precisa avaliar se
realmente está participando com todas as forças da atividade missionária
da Igreja. No âmbito da Igreja latino-americana, a Conferência
de Puebla (1979) convidava as Igrejas locais a se projetarem além de suas
próprias fronteiras, dando da própria pobreza (P, 368). Na atividade
vocacional deve-se despertar, promover e orientar vocações missionárias
(P, 891). Conclusão
São Francisco Xavier, grande missionário jesuíta do século
XVI, considerando a realidade da sua época, lançou então
um grande desafio. Escrevendo a Santo Inácio de Loyola ele manifestava
o seu desejo de sacudir as consciências daqueles que "têm mais
ciência do que caridade". Queria sair pelas academias da Europa, gritando
como um louco e mostrando a responsabilidade que aquela gente acomodada tinha
diante das carências da evangelização. Hoje continuamos
a sentir a ausência de profetas que denunciem a omissão e a acomodação
de determinadas Igrejas, de certos bispos e de muitos padres. Precisamos gritar
bem alto que não basta fazer propaganda vocacional e insistir obsessivamente
na falta de padres. Precisamos ter a coragem de dizer que em muitos lugares eles
já sobram. O que falta mesmo é o ardor missionário, a paixão
pelo Reino e o carinho pelos mais pobres. Faltam em muitos padres o espírito
de serviço e o zelo do Bom Pastor, daquele que dá a vida pelas pessoas. Precisamos
denunciar um certo tipo de propaganda vocacional que apresenta o ministério
do padre como status e privilégio. Temos que combater aquele tipo de propaganda
vocacional que se baseia na apresentação de vantagens. Aquela que
apresenta o campo de futebol, a churrasqueira, a piscina, o grande seminário,
o quarto bem mobiliado, o microônibus para conduzir o pessoal, a promessa
de estudar em Roma, de ser ordenado pelo papa... Este tipo de marketing vocacional
só atrai pessoas acomodadas e não gente disposta a ser enviada em
missão. Se este material vocacional continuar sendo elaborado e divulgado,
se essa mentalidade continuar prevalecendo, vamos ter, sim, um mundo "cheio
de padres", mas raramente vamos ver "um operário na messe de
Deus". Tudo como no tempo de São Gregório Magno. O povo vai
continuar sem pastores! O folder vocacional - se é que ele tem que
existir - deveria conter apenas uma coisa: a imagem das multidões abandonadas,
pobres, sem ninguém para olhar por elas. Nele deveria aparecer somente
a figura daquele que veio para servir e não para ser servido (cf. Mc 10,45).
O lema deveria ser o seguinte: "Vamos para outros lugares, às aldeias
da redondeza. Devo pregar também ali, pois foi para isso que eu vim"
(Mc 1,38). Este tipo de propaganda vocacional afastaria de imediato os que querem
se instalar e se acomodar. Não abriria espaço para os "consumidores"
de privilégios e status sacerdotais e nem para os aproveitadores. Mas certamente
atrairia gente mais corajosa e mais disposta a seguir Jesus, o "andante"
(Mc 1,39) e peregrino do Pai, que caminhava sempre na direção dos
excluídos e excluídas.

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